terça-feira, 10 de novembro de 2009

Honoris Crise?


O actual momento de recessão económica mundial ainda não passou disso mesmo. A volatilidade que tem caracterizado o sistema económico, traduziu uma instabilidade total no sistema financeiro, como se pôde verificar nas alterações do preço de petróleo no final do ano passado. Em poucos dias os preços variaram mais que durante alguns anos.
Estes factos foram de maior escala no barómetro que é a economia americana, e estenderam-se um pouco por todo o mundo, com mais ou menos intensidade. As democracias, de forma altruísta, «saíram à rua», procuraram ocupar o espaço perdido pelo mercado do sistema capitalista, e maximizaram a sua influência ao injectarem dinheiro nas economias e a desequilibrarem ainda mais um sistema que é global e que necessita de confiança «para ir ao sítio» novamente. Foi o que aconteceu em todos os Estados obesos das democracias ocidentais. Mas o aumento excessivo da intervenção do Estado na vida dos cidadãos consubstancia perigo de retrocesso nas democracias, pois acaba por limitar a sua liberdade de alguns indivíduos. De facto, nas ultimas eleições europeias estes Estados paternalistas foram castigados.


Isaiah Berlin augurou isso mesmo. De facto, há uma motivação nobre quando o cidadão pretende um Estado interventor, mas o custo a pagar por um estado demasiado paternalista é imensurável, pois trata-se de uma limitação à sua liberdade. E isto é verdade, senão vejamos: o que pensará o empresário bem sucedido quando o seu concorrente de mercado é ajudado porque não se esforçou ou teve menos sorte! No entanto, é certo que esta base conceptual não se aplica de forma linear às pessoas e é nestas alturas de crise acentuada que deve soar o alarme para uma safety net eficaz ao nivel do estado social.
Sobre a origem da crise muito se tem falado e sobre o capitalismo, uma palavra que não soa muito bem, recaem todas as culpas de todos os quadrantes. Sobre a insensibilidade do que se diz dos «economatas», nem me atrevo a comentar porque me parecem, na sua essência, injustas.
Mas, julgo que não é sobre eles que devemos descarregar a nossa ira e devem recair todas as culpas. É certo que muitas das regras estáticas da economia de mercado falharam e muito foi mal feito. Estes erros económicos de não adaptação à volatilidade e por isso de elevado risco, levaram em parte, à crise e a que uma assimetria económica se acentuasse, e por isso, assistimos agora a um esvaziar das classes médias ocidentalizadas. A culpa não é só dos especuladores gananciosos da bolsa, mas de vários factores, que todos juntos geraram a actual conjuntura.
Em termos económicos, não desejaria novas regras pois isso significava um colapso, mas uma reabilitação gradual da rede de regras actuais. Desejo que sobre o efeito de mão invisível da economia de mercado se coloque uma «luva fina protectora» que aumente a confiança, até ao equilíbrio, e não uma ruptura ou luva grossa.



Em termos políticos a questão é complexa. Julgo que a diferença de Regras entre as democracias ocidentais e a emergência do oriente, que soube aproveitar os pingos de conhecimento que escorreram do ocidente, permitiu que paises como China e Índia jogassem em todo o tabuleiro da economia mundial. Uma economia em rede e global, numa assimetria de regras democráticas, desregulou o sistema económico, com maior ênfase nas verdadeiras democracias, de Estados sociais para alimentar e liberdades consumistas para manter.
Enquanto no Ocidente se lutava por mais direitos e liberdades, as empresas procuravam modernizar-se e adaptar-se ao «vizinho do lado», ao Oriente chegava mais conhecimento e com ele produzia-se, de forma desigual, mais riqueza que agora compete em todo o globo.
Não há democracia, conhecimento, tecnologia, empreendedorismo e força de vontade que compita com desiguladades sociais a produzir em escala. Nós Ocidentais, queremos viver melhor e lutamos por direitos de terceira e quarta geração, como a qualidade de vida multidimensional. Mas na China e em algumas democracias formais, luta-se pelo primeiro patamar dos direitos, a paz o pão e, um dia, a habitação. Não devemos esquecer que na China, com menos de cerca 8% de crescimento ao ano, pessoas morrem à fome. Nesse mesmo país, há parte da população, que não os imagino de gravata a andar de bicicleta muito tempo.
Apercebendo-se disso, Obama, para salvar o nivel de vida de uma das melhores democracias do mundo e ultrapassar a crise, apostou forte no que se denominou de Chimérica, aquilo que muitos prevêem ser um novo país em poucos anos. Para a China manter o seu crescimento actual e a America manter o seu sistema económico e níveis de vida, a América comprometu-se a comprar à China parte da sua produção enquanto estes emprestavam triliões para Obama injectar na sua economia. Relembro que mesmo em crise, o estado americano é um estado federal cimentado e que não tem problemas demográficos.
Assim se poderá resolver um sério problema para a própria América, mas sobre a Europa as preocupações da recessão são mais complexas. O sistema de governo europeu não é tão coeso e capaz de gerar soluções político-económicas nesta escala, aliás, a Europa passa por um processo de construção europeia. A prova disso é a questão da dificuldade de aprovação do próprio Tratado de Lisboa, mesmo que este seja por si só redutor, pois acaba com o maior valor da União, a sua a colegialidade.
Quando, perante a crise, se fala de um mundo pós-americano julgo que se deverá temer um mundo cada vez mais pós-europeu. A velha Europa, não controla os processos de migração, tem Estados sociais flácidos, tem problemas de nacionalismos exacerbados, tem impedâncias aos alargamentos como a questão da Turquia, ainda por resolver, tem heterogeneidade linguística e conjunturas politicas internas para se distrair.
As perspectivas são boas, num contexto de casamento franco-alemão e abertura ao novo lider além Atlântico. Mas a Rússia, é uma grande democracia formal, pobre, com problemas deográficos graves e constantemente pisca o olho ao mundo árabe que tenta à segurança das democracias ocidentais, sendo as mais próximas as europeias.
Obama é hoje a esperança de que a crise económica não se traduz numa crise politica, com recuos democráticos. Todos sabemos que o recurso à guerra não faz parte da panóplia de instrumentos para a resolução de conflitos, mas o poder dos homens não é bom conselheiro. Na verdade, mesmo que sobre a maior esperanças recai a maior das desilusões e que a história não conhece impasses, todos esperamos que esta crise nos auxilie numa aprendizagem global.

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